22.6.17

o ninho

Não é o rascunho do que viríamos a ser
É o contorno que fazemos com nossos corpos circunscritos
Côncavos alguns dias convexos mas
Sempre
Rentes e seguros

Não é a vontade de juntar escovas de dentes e planos é
O contorno que se faz do meu medo dentro do seu como se tivéssemos
Coexistido para nos ampararmos nesse
Mundo de imensidão e vazio

Não é a ideia de ter dois filhos botafoguenses é o
Contorno de ser entendido em um curto suspiro
Que entrega um dia que não vai muito bem

Não é o que pintamos de uma relação ideal é
O contorno que fazemos para aprender a pintar por dentro
Aprender a aprender
E eu me desafio
A me destituir das minhas arrogâncias

Não é o amor que estamos prestes a amar é o
Contorno que nunca deixamos de fazer

Lost in Translation



19.3.17

manual de como ser lida

Esse texto não é para ser lido como texto é
Para ser sentido por dentro dos tímpanos como
Um grito em uma almofada
Esse texto não dá pra ser nem texto ele é um
Começo de uma gestação problemática que pode nem
Dar luz que pode nem vir a ser matéria alguma
Esse texto não é meu e nunca seria
São olhares lançados ao mundo que reúno na
Audácia de explicar a vida e não é que eu
Acabo me sentindo mais viva
À medida que entro em um processo de derretimento
Para me tornar arte como faz-se dos vidros e da cerâmica

Esse texto nem queria ser texto era mais
Um produto de algo que não se diz
Por letras
Mas acabou se dizendo
Pois esse é o fim que todos temos enfim que é
Nos tornar um emaranhado de palavras

Mas cuidado que
Minha fala goteja em panela furada
Não é para ele que era e não é para eles e elas
Eu falo do mundo o que o mundo me fala
Mensagem sem destinatário

Pode me ler nas lacunas entre estrofes e me ler
Na métrica desobediente e pode ainda me
Encontrar no afeto ruidoso que transcorre minhas
Palavras mais usadas

O que a escrita tem de mais substancial no entanto
Simplesmente não se lê e é
A relação entre eu e as palavras que não são mais minhas
No instante em que as entrego

Exercício de devolução




--
Obs.: Vem livro por aí! <3

metalinguagem

Falar de si e de nós quando ainda
Não somos nós
O contexto dessa relação
Quando ainda importam mais os filmes
Em cartaz
E o desfecho de uma reportagem
E como funciona um aparelho
Quando ainda não somos os protagonistas
Do afeto um do outro
Quando ainda é cedo para colocarmos
Vontades maiores do que simplesmente as coisas levianas
Que queremos e nossos programas para o sábado

Falar de si e de nós quando ainda
Não somos casal
Quando ainda não se tem registro de quem
Está bravo com quem ou
Do próximo presente de aniversário
Quando ainda importam mais as besteiras
Superficialidades e perguntas triviais
Que não respondem o desamparo
De camadas abaixo da questão em si

Falar sobre o espaço que se ocupa na vida um do outro e
Sequer ter os ouvidos afinados a esse tipo
Minucioso de linguagem
Falar em freqüências afetivas
Distintas
Quando ainda estamos nos amando
Secretamente
Por baixo das nossas falas

Falar da coisa em si que nos conecta e do ponto
Que liga todos os outros pontos
Falar do vazio compartilhado que carregamos e 
Das nossas urgências sobrenaturais por cafunés e
Pelo mais profundo entendimento
Falar de nós
Pra nos tornarmos nós
Em um espaço comum

Metalinguagem em que existimos

The living - Collin McAdoo

amores certos

Por mais que eu vá de encontro à intensidade como
Bichinhos de luz vão às suas lâmpadas
Por mais que o seu jeito de dançar tenha esse descompasso
Ritmado ao meu
E isso pareça significar algo
Por mais que tenhamos o impulso de viver amores com displicência
Como as pessoas comuns vivem suas viagens de fim de semana
Por mais que tenhamos um fraco pelo romance despreparado e
Fulminante
Por mais que percamos o gosto por nossos pares como se fossem chicletes
Em nossos dentes
Por mais que eu e você
E talvez mais eu do que você
Vendamos nosso afeto como um produto legítimo a leilão
Por mais que sejamos
Sagitarianos
Eu e você não passamos de amantes sem bom senso que
Só sabem dar um primeiro beijo desenhando roteiros
Que só sabem fantasiar vidas inteiras
Que se afogam em garoas
Que se doem nas lacunas temporais
Entre apaixonamentos

Eu e você só sabemos provocar e até
Atrapalhar
O trabalho do universo em nos trazer
Amores certos
E ele vai condenar nós dois à calma de um amor seguro
Vai trazer a monotonia de um amor verdadeiro
Vai trazer
Vai chegar
Apesar de


Marina Abramovic & Ulay

19.2.17

a elas, a nós

A minha dor é a cara da sua e se
A gente botar nossas dores pra dialogar
Vai sair uma tonelada de chumbo de dentro da gente
Eu vejo pelo canto caído dos olhos
Mal sorridos
Que a gente tem uma dor gêmea que dói de uma mesma
Nascente
A gente é mais irmã do que imagina porque a
Nossa dor combina
Da semente até o talo

A minha dor dói na sua 
Dói por dentro da sua
E se a gente colocar nossas dores pra cruzar sai uma
Constatação
Que a gente não deveria nem ter
Doído tanto

Nos fizeram opostas
Eles sabiam do estrago que dá
Quando as dores encontram seus pares

[so.ro.ri.da.de]

28.1.17

as mulheres que comem sapos

Ela disse naquela voz vagarosa de quem
Viveu caminho bem vivido
A cada uma de minhas pupilas disse
Minha querida, as mulheres que comem sapos estão
Nos mais longos dos casamentos e são
As mulheres que engolem mágoas que estão concretizando
Filhos adultos bem formados e
Viagens bacanas de família
Ela disse
Minha querida, faça mais por ele
Seja a voz do relacionamento e não espere
Pedidos de desculpas afagos e conclusões
Harmoniosas e seja
O silêncio do relacionamento também
Se ele assim desejar

Ela me pegou pelos ombros e disse minha
Querida você é a mais madura dos dois seja
A imagem imaculada que tudo perdoa e tudo recebe
Seja a evolução que ele não alcança
E minha querida insista em entender as dores
De tapas que doeram mais nele do que
No seu braço acredite querida
Ele não tem discernimento ele não
Tem nada
Sem a sua compreensão

Ela disse como quem diz a si mesma
Minha querida o pânico que você sente vai se aliviar
Você vai aprender a não
Sentir e vai se bastar de tanto
Amar

Minha querida cure-se de todo o seu querer
As mulheres que mastigam sapos estão nos mais
Fotogênicos dos namoros
Nos mais graciosos pares elas mastigam
Suas dores
Anfíbias
As mulheres que não mais sentem e não mais desejam
Sentir
Estão entre as mais amáveis das fêmeas
Minha querida não o
Confronte
Com todo o seu tônus e as suas audácias

E cessou com o suspiro
Com o cansaço de ter sido
Toda vida
Querida



7.11.16

intermitente

De repente porque caiu um meteoro na avenida principal e a gente não
Chegou a tempo da sessão de repente isso
Põe na minha conta a culpa de ontem somada a essa de agora
De repente porque choveu e meus guarda-chuvas são todos
Quebrados e está na cara
Que eu faço isso de propósito
De repente porque estive usando umas palavras pouco suaves e
Talvez tenha usado um rosto mais triste
No dia do enterro do meu avô
De repente foi a minha demora em terminar um sorvete em
Terminar uma frase em terminar uma respiração
De repente essa culpa nova debitou em minha conta porque
Eu não falei que o amava quando você me
Largou na avenida sem devolver minhas chaves e minha carteira
De repente e provavelmente foi o elogio que eu teimei em receber de uma amiga
E respondi que me sentia amada
De repente é o franzido do meu nariz que invoca o pior em você e
Não dá para tolerar coisa dessa
De repente são os meus acertos na hora que eu deveria estar
Perdendo a cabeça junto com você
De repente tudo isso é faísca nos campos minados em que já
Perdi pernas e braços

De repente amor se desama como
Sopro em dente-de-leão

Explosão intermitente



para-raio

Mas essa garota só atrai gente pirada. 

"Atrair maluco" é um presente. Vem em forma de investimento: enriquece a longo prazo o meu olhar. Digo que atrair essas vivências é experiência do divino, pois me presenteia com o melhor dos dois mundos. Transcende.
Se amanheço trabalho, boleto e checklist, vou dormir céu, pitanga e Almodóvar.
Se debato os rodapés das revistas de fofoca, retorno ao silêncio em devaneios sobre todo o sentido da existência.
Tenho em mim a vitalidade da loucura e o contínuo da normalidade. Tenho em mim a dor das mentes incoerentes e o peso das nucas engravatadas.  
Presenciar loucuras me deu mais lucidez e autenticidade em meu sentir. As verdades neuróticas me deram o contorno. As insanidades me deram as cores para pintar por dentro.
Gente que pisa fora da normalidade é uma benção pra nós, que usamos despertadores, que nos preocupamos com prazos fictícios e toda essa ilusão irresistível da ideia de existir um só tempo. Mania de linearidade.
Empresto um pedaço de mim aos balbucios. Me doo. Aos napoleões e antonietas. Às piscinas de gelatina. Às construções que se comunicam pelos arranha-céus. Aos desenhos que tomam corpo e vida. Às cantorias incoesas e às cenas gregas. Me doo em parcelas ao enlouquecimento com que me criei artisticamente - e ao qual devo boa parte de minha consciência emocional. A gente se reconhece na loucura dos outros. A gente se reintegra dentro da nossa.

Enlouqueci no morninho da vida: pipoca só estoura no fogo.



14.10.16

amorfo

Eu tenho o eco da vida nos olhos e tenho
Um milhão de melodias
Que andam comigo em câmera lenta
Tenho em mim
A riqueza dos planetas
O formato do diamante eu tenho
E tenho a história dos monges eu
Tenho a vivência de poucos e tenho
Ouro na minha saliva

Você tem o oco que a gente
Preenche com a minha voz você
Tem o nós que eu criei com os meus
Calos de artista

Eu o amei amorfo
Pra compor sua história dentro da minha

Ilustração por Fernando Cobelo.

baú

Talvez o que mais doa em uma escala
Não-numerada
Seja um pouco do que eu senti hoje
Talvez o que eu sinta seja a evolução dos
Dedinhos nas portas
Da canela na quina
Talvez seja a acidez do estômago elevada à
Vergonha de estar nu no maracanã
Talvez tudo isso doa
Um pouco do que eu senti hoje

Não está para um tiro na perna e antes fosse
A dor parece
Uma descoberta de que você entendeu a vida toda errado
Um monólogo de um protagonista substituto sem
Carisma

Uma farpa no olho e ainda seria
Uma dor melhor do que a de hoje

[Passa]

dezenove

Hoje eu dormi pra esquerda e foi assim
Que uma pedra tocou na outra
Veio a lembrança e a gente não sabe muito bem
Como isso acontece mas
Vieram os dias que eu voltava
Com purpurina nas mãos tilintando moedas
Na fila da padaria junto a pessoas de vidas mais extensas
Amores bem vividos e cartões para bater na hora certa
De gente que trabalha aos domingos
Vinha bambeando em minhas botas desejando ter
Um corpo apenas para me apoiar um corpo de voz baixinha pra
Telefonar e saber se cheguei em casa bem e eu acordaria só
Pra dizer que sim, ensaiaria até mesmo um
Cheguei, meu bem
Pra que ele dormisse tranquilo com meu perfume entre os dedos

Hoje eu dormi desse jeito que evocou alguma coisa e 
Foi assim que veio um frame daqueles dias
Que eu voltava pra casa na hora da missa dos meus 
Vizinhos e tirava os sapatos ainda no asfalto eu
Não tinha esse discernimento eu nunca
Tive paz
Era tempo de ter muitos amigos, eu tinha
Era tempo de achar que um último amor era
Realmente o último
Era tempo de deixar minha mãe preocupada com os ônibus
Que eu pegava com as companhias que eu cismava que eram gente finíssima
Amizade duradoura desde o fim de semana retrasado

Eu dormi sem saber se fui feliz ou triste e realmente
Não saberia fazer essa conta mas despenquei
Como dormia de volta pra casa nos taxis
Com a tranquilidade e a melancolia de quem ainda tem
Três quartos de século pela frente

Eu só não tenho dezenove anos





1.8.16

terreno

Já tem mais de mês eu pulei esse muro estive
Com os joelhos ralados expostos
Com as unhas nas cascas como em tampinhas de
Refrigerante
Já tem mais de mês eu já esqueci qual
Mês eu voltei pra cair de joelhos no concreto
Deixar tecidos da minha pele naquele jardim dos mais
Férteis
Pra nascer de mim outras de mim que falam o meu indizível
Em folhas e galhos que crescem desgovernadamente além
Do meu tamanho

Já é mais de um mês e eu volto com todo o meu constrangimento
Pra podar as folhas que deixei secas raízes famintas e
Mudas
Com minhas cicatrizes já fechadas sem o menor jeito sem a menor fé
Mês depois volto para verificar as condições do solo e
Colher quase nada que cultivei nessa estação de
Poucas palavras

Já é outro mês e não vem uma chuva pra me molhar as bochechas uma
Perda de fôlego qualquer que me atravesse até se transformar em
Palavras embaixo da minha língua
Com a boca vazia mês vai mês vem retorno para enterrar
Páginas vazias

Já tem meses e eu não
Consigo
Sentir


--
Eu chamo de fazer uma limonada - escrever sobre a não-escrita. :)


21.6.16

poeira de estrela

Batata frita pra dois. Refrigerante em refil. Sal pra ele, mostarda pra ela.

Sentei-me no restaurante ao lado do casal. As mesas eram tão próximas que era quase impossível não mergulhar nas histórias de vida, viagens, debates, na sordidez dos detalhes, no golinho do milkshake, fecha-a-conta, beijinhos de despedida. Todos perto, como em uma grande mesa de natal, parentes distantes e vizinhos cujos nomes não lembramos.

O casal era agora meu ouvido direito. Meu pé direito, o furinho na manga direita do casaco. Colei mais perto do que gostaria.

Tentei pensar no curso que acabara de fazer, na programação do dia, mas me vi imersa naquele casal por pelo menos duas horas.

Ela falava, ele ouvia.

Ela contava histórias longas, ele assentia.

Com sorte, ela punha um "né?" ao fim da frase  - dava tempo de ele murmurar e sorrir com os olhos.

O hambúrguer era dele, o vegetariano era dela.

Ele era dela, também. Cada milímetro de seu ser dedicado àquela existência; devoto ao relato de sua ida à copiadora, ou à casa da avó, ou do seriado que começara a assistir sozinha.

Brincaram de sério, perderam juntos, rodadas a fio. Desempataram quando ela testou uma cara esticada de "plástica". Ele riu bastante alto. Pude ouvir sua voz, acho que pela primeira vez, já em minhas últimas batatas fritas.

Ela pagou a conta. Dinheiro do estágio. Ele estalou um beijo em sua testa. Passos ruidosos e braços longos, de ombro a ombro, naquele andar conjunto de quatro pernas.

Fiquei órfã naquele instante. Espreguicei o corpo. Em um espaço estranhamente amplo, pude me perguntar se era ela a estrela do casal. Ou se era, ao menos e por que não, o dia dela de brilhar naquela constelação de dois.

O amor é esse presenciar, silencioso, do nascimento de uma estrela.
A admiração e o sentimento de sorte.
A constatação de estar rico por dentro, abastado, invencível.

Digeri. Paguei e fui embora a pé, desnorteada. Comi essa poeira.

No céu de quem a gente brilha?

palanque

Quando pequena
Em nossas viagens de carro
Caetano soltava absurdos
Pelos autofalantes
"Ele é quem quer
Ele é o homem
Eu sou apenas uma mulher"

Minhas irmãs cresceram
Feministas
Eu cresci fêmea
Entendi pelos Caetanos
Que eu era
Apenas

Vieram os roxos
Engasgados
Vieram as loucuras
Induzidas
Vieram os moços, e muitos
Vieram as feministas

Eu me vi
Caetana
Ao dizer das mulheres loucas
Ao dizer das mulheres frágeis
Ao dizer das mulheres
Eu apenas me ouvi
Calada

Fizeram pouco de mim
De minha história
Extraíram a cientista inventora artista
Fizeram de mim a namorada
Em uma morte horrível
Morri fulana
Mulher de alguém

Duvidei de meus pés pequenos
De fêmea
Pra pisar pequeno no mundo
Pra não acordar os gigantes

Mulher existe miudinho

9.2.16

falência

Esse amor está me custando caro
A cara
Homeopatia terapia telefonemas longos
Está me custando tempo
Trinta e dois momentos
Para um resíduo de memória

Esse amor está me custando parcelas
De vida
Arrasta demora dúzias muitas
Custa um quarto de dia ou um ano bissexto
Duas semanas
Custa saúde e combustível
Explicações

Esse amor está tributado está
No seguro
Poupança que a gente esvazia
Pra comprar um punhado
De areia
Pra comer do vento mais barato
Pra reservar um milésimo
De uma formiga

Esse amor está sendo
Desvalorizado
Está me custando cruzados cruzeiros
Escravos e
Escambos

Esse amor está me custando outros
Amores
Possibilidades
Está me fazendo pobre está
Em migalhas e trocados

Esse amor comeu o meu tempo

20.12.15

debate

A oposição era ela
Toda dela
Quando os amigos dele não compreendiam
Sua sensibilidade
Quando os carinhos dele esgotavam
Mês adentro
Quando ela apenas
Precisava

A oposição era ele
Só dele
Reclamava se ela descuidasse
No afeto
Se ela mudasse humor e ainda
O espírito
Se ele apenas
Precisasse

Preciso discutir
Precisamos
O que se deu na minha infância sua vida desmemórias
O que se tem nas dobradiças
Os erros as faltas as sobras
Os acertos
A fala

Cansa
Retrai
Descansa
Fica

Sei bem

A oposição tem amor de sobra

13.9.15

sete a um

Quando estou só
Eu passo a pesar
Um milhão de toneladas
Quando estou comigo mesma sou
Leve e
Densa
Escombros de mim mesma
Que poluem vento

Quando lembro de nós dois
Corpos que se cruzaram em uma
Copa de ruas tumultuadas
Lembro
Sentir o extenso recomeço
Que pontua os meus ciclos
Espécie de em-si-mesmência
Ou coisa parecida

Quase carrego
Em mim
A audácia de um coração vazio

Mas quase



poema solar

As meninas de dezembro
Não buscam o que encontram
Sabem do que falam
As meninas de dezembro não
São só
Sagitarianas
São, ainda, mulheres
De sagitário
O que é muito diferente e
Quase o contrário
Entendem até do que não
Conhecem
Sabichonas
E exageram nos temperos e nos
Desfechos
Porque uma vida inteira não
Nos basta
E uma vida inteira não
Nos tem

As meninas de dezembro
São más
E ainda por cima
São livres


8.6.15

orgânico

Aquela fotografia que se foi, como era
Que alguém a encontre e guarde
Embaixo de um copo
Que alguém nos rabisque os dentes e olhos
Que ela possa tingir o humor
Ou amor
De algum outro casal

Aquele retrato que está em caçambas
Em escombros
Que o lixeiro o guarde e mostre
À esposa e filhos
Que possam eles mesmos pensar
Ou sentir
São tantos, pai
Os amores biodegradáveis

Aquele retrato que a gente guardava
Dentro de um livro que a gente
Não lia
Naquela estante que a gente
Não limpava
Fez o dia de alguém mais bonito
Fez um quebra-cabeça
De memórias
Junto às Ruffles e ao papel toalha
Manchado de sugo e óleo
Fez a gente sentir falta

Que caia na mão de Fridas, calos
Que caia na mão de Fernandos, pessoas
Que caia na mão de artistas ou quase
Pra ficarmos vivos em figura e forma
Em mente e ideia
Inspirando
Poeira

Que vire escultura, poema
Espetáculo de curta temporada
Que pare nas mãos certas
Se possível
Nas nossas
Para sabermos da angulação
De nossos sorrisos
Da precisão dos nossos
Corpos
De como éramos e como
Somos

Beleza itinerante
Em sacolas de lixo





19.5.15

jogo da memória

Os casais se repetem dois a dois
Três a três
Um mais um
Fazendo dois iguais aos
Que faziam antes

Os casais se desfazem e depois
Só remontam
Os pares

Fazem danças iguais
E amam o mesmo
Amor
Cansam o mesmo
E de novo amor
Dois a dois
Um por um
Dez iguais

Eu e tu e até
Ela e ele
Eu igual a ela e
Tu igual a ele
Tempos cíclicos
E ainda
Diferentes

Das vida que se cruzam
Pelas mesmas pontes
Formo pares
Meus cabelos e
os fios dela
Teus óculos e as
Pupilas dele
Mãos e cotovelos
Que diferem
Para nos lembrarmos em que
Tempo estamos

O afeto tem todo tipo de tempo
Tempo curto
Tempo gasto e
Tempo afeto
Insistências
Tempos outros
Vidas que insistem
E se cruzam
Sempre
Pelas mesmas pontes

Ensaios reprises refilmagens e
Os mesmos atores
Remontando cenas
Em pares trocados

Jogo da desmemória


9.12.14

vinte e cinco

- Parece que os dias de hoje têm um peso diferente. Uma atmosfera áspera, ainda que incolor. E tátil, ainda que simbólica. A gente vai caminhando nas ruas entre corpos machucados, como em um campo de guerra sem sobreviventes. Só que são corpos eretos. Corpos que trabalham. Corpos que compram. Que matam a sede, a fome, fazem rituais próprios e conversam uns com os outros. As feridas vêm de custos emocionais, não-ditos, passados. São cascas. Só cascas. Talvez a ideia seja esbarrar com alguém que more em uma casca parecida com a tua: mera familiaridade.

- Não sei. O amor já morreu, de toda forma. A funcionalidade matou o amor. Lembra-se do cara que a presenteou no segundo encontro com um canivete?

- Bastante.

- É isto. A funcionalidade matou o amor. O amor não é para-quê, nem porquê. É para dois. Não se faz amor dentro de si. O amor só pode nascer naquele espaço entre sis. É um terceiro objeto: existe a pessoa, a outra pessoa e o que se constrói a partir das duas. A funcionalidade faz com que esse espaço simbólico não exista. O canivete matou o amor, porque não representava o espaço do amor, mas sim a projeção analítica de apenas um.

- Mas é certo que o amor morreu? Penso, ainda, que as cascas podem se tornar compatíveis. Momentos de vida parecidos, produtivos quando em diálogo.

- O amor morreu como você o conhecia. Você está em busca de algo que você, na verdade, desconhece. E por isso pode se tornar difícil de enxergar; identificar nuances em meio à disformidade. Você vai repensar o teu modelo de amor, umas boas vezes, até se convencer de que o modelo não existe. E aí vai deixar pra amar só quando o amor fizer sentido. O amor não é funcional, é espacial. 

- E o moço do canivete? Era amor?

- Talvez fosse. Só que não houve o espaço simbólico para que esse amor se alimentasse. Você estava interditada e não sabia. Pra onde cresce o amor quando só se pode ocupar um lado? Você fez do canivete um canivete funcional. Não deu tempo.

- Então eu matei o amor?

- Possivelmente. E vai matar algumas boas vezes até que o compreenda como ele é: o oco a ser preenchido.



Foto não-relacionada. :)


28.10.14

rumi

Vamos a um encontro
Pra eu saber de uma vez por todas
Teu signo e teu
Time
E agir como se isso fizesse
Todo o sentido
Saber tua fé
Teus sobrenomes
Como se isso abrisse
Passagem qualquer dentro de mim

Vamos sair num encontro
Devo saber de uma vez por todas
Com que mão pega garfos
Com que jeito bebe
Nos copos
Como se isso misturasse
Minhas lembranças e vivências
Como se só isso movesse
O que está decantado no fundo de mim

Vamos ao encontro
De cotovelos que se apoiam na mesa e
Mãos que apoiam as bochechas
Nos relatos de nossos filmes e referências
Músicas e historias de vida
E fingimos que é isso que importa
Quando assentimos com as cabeças
E sorrimos com os olhos
Sabendo enfim do enredo dos anos
Como se isso fizesse
Nosso ano mais feliz

Vamos a encontro
E que esse encontro aconteça
E aconteça onde e quando
Fizer
Algum
Sentido

O que me eu busco me busca também


--
What you seek is seeking you - O que você procura está procurando você
- Rumi



5.10.14

verde-grama

A Ana tinha um namoradinho bacana.
Era aquele que esperava por ela no corredor da faculdade, dois copos de café nas mãos.
E que tinha sempre um beijinho pra escapar da boca e pousar na testa dela.
Era aquele dos anos que se arrastam como promessa.
E que aparecia nas fotos com sorriso besta, de gente entregue (e só quem já foi entregue um dia sabe sorrir assim).
Era um, dentre muitos namoradinhos da Ana. Mas é claro que ele não sabia.
Ele só era.
Era o amor dela nas redes sociais.
E o moço promissor dos almoços de domingo.
E o moço dela nos presentes, nos carinhos e na conchinha.
Ela não era a moça dele.
Mas tudo bem.
A Ana tinha esse namoradinho bacana.
A Ana tem, ainda.
E ele está feliz da vida.
Todos estamos.

Bonito par, esse da Ana.





10.4.14

carta de perdão

Hoje vou perdoá-lo
Para assim perdê-lo
Soltá-lo
E devolvê-lo
Perdoar por ter me devolvido
A esses caras
Ter me deixado livre
Pra todos esses caras
Por não ter sido
Esses caras
Por ter me perdoado
Quando era pra sentir raiva
Por ter tocado meus ombros
Quando era pra tocar
Meu âmago
Quando era pra me procurar
Em meus escombros
E se confortar
Nos meus cantos
Quando era pra eu ser chão
E você teto

Mas hoje vou perdoá-lo
Para assim sabê-lo
Soltá-lo
E devolvê-lo
Perdoar por ter me devolvido
A sonhos crus
Sem rosto sem
Cheiro

Perdoá-lo por ter me tornado
Meu avesso
Por ter me tornado
Possível


--
Nota: Primeira poesia em anos. Com calma, que eu sou de prosa.


5.3.14

aviso: esse é um texto leve

Conheço uma pessoa que, a goles emotivos, cita sua metáfora favorita, o copo de uísque entre os dedos: a vida é um trem.
E nesse trem, sempre em movimento, entram dois tipos de passageiros: os que se sentam ao seu lado e vão até a estação final e os que descem antes.

Eu, usuária compulsiva de metáforas, uma , complemento em sobriedade: esse trem vai aonde você quiser - mas não dá para escolher quem vai entrar. Pode ser que venha assaltante, gente que te tire tudo, que passe esbarrando, que esmague, fale alto, ensurdeça, que tente mudar sua direção ou lhe faça esticar as pernas, gente que perfume ou azede o ambiente. Rostos que marquem mais, outros menos; certamente, poucos são ao final do percurso. E que bom que são poucos. E que bom que ficam. E que bom que outros não ficam; os bons precisam se sentar, andam cansados de muitos trens. Baldeações.

Já havia avisado: esse é um texto leve. Esse é um momento leve. Vagaroso. Não há pressa. Há chão.

15.2.14

desmentira

Conclusão: nunca me faltou amor.
Eu seria muito injusta com a vida se ignorasse seus aprendizados, seu sumo. Eu amei até demais. E recebi amor de variadas nuances. Estou farta de amar errado, de amar certo um alguém errado, de comer amores que não desejo; estou farta e - ainda - insatisfeita. Voraz. Mas é amor, ainda se é errado e torto. Nasce amor, acaba amor, e eu recolho meus pedaços do chão, a curva da minha lombar me grita, me cansa, já chega, quem é que ajuda a me recompor, a reunir estes cacos? E as feridas nas pontas dos dedos, que nunca dei tempo de cicatrizar? O que faço com elas? 
Doem-me mais os amores incompatíveis. Não sei onde guardar meus amores incompatíveis. Insistimos e insistimos. Esse, principalmente, o meu e seu, que só funciona quando cada um vive sua vida. Eu quis que sua vida cruzasse a minha, fechasse a minha, viesse assim, pela contramão, fizesse um fuzuê, parasse a cidade. Não deu. E agora, onde é que eu guardo isso? No silêncio? Na troca de olhares com novos namorados? No esquecimento dos anos?
Eu não entendia esse conceito, amor-da-vida. Eu subvertia: dizia a meus amigos que o amor da sua vida é sempre o atual. Será? Será que aquele rapaz dos seus vinte anos não foi sua última e única chance de completude? Será que não é da maturidade aceitar que nada maior do que aquilo virá? Aquela garota que faz das outras apenas garotas ecoa por trás dos novos retratos e viagens e intimidades, das novas parcerias? Tem passado escondido no seu presente?

Em conformidade com a vida, caminho só. Em conformidade com a vida, entrego. Desminto a mim mesma, rendida: já amei sim. E, em conformidade com a vida, vou amar mais.

Eu não sei a hora de parar.


[Até porque ela não existe]

26.1.14

sobre vãos e pontes (e pontes sobre vãos)

A maior de todas as saudades é a que sinto enquanto você ainda está na minha frente.
É vontade de existir você em todos os poros. De ter você em todos os meus cantos e esquinas. De colar com você. Há muito 'nósdois' num espaço que não é só de distância física, entre corpos, mas também imaginária; esse 'nósdois' que a gente mesmo criou, e do qual nos nutrimos, pra aonde vai, onde é que fica, em quem se esconde, como se guarda, quando não há atrito entre bocas, entre os dedos das mãos? Existe um vão que a gente não supera nem deitados com as pernas enroscadas, e é a esse vão que eu dei o nome de saudade. Não saudade dos dicionários - a nossa saudade. Eu preciso de você mais do que dá para saciar. Mais dentro do que perto. Mais fora do que dentro. Na minha frente, na minha cara, dividindo do meu hálito. Ainda assim, sinto. Porque saudade é essa divisão entre peles que faz de 'nósdois' dois nós desatáveis - que permanecem atados pela mais bonita das teimosias.

[E ponte final]

19.12.13

ninildes e o silêncio

Olha que coisa incrível: hoje me lembrei do Ninildes. E da Ninildes.
E pensei que, se consegui ter esquecido, é porque eu estava vivendo em outro lugar de mim. Lugar mais calmo, de menos palavras e de um silêncio sublime.
Não que a vida estivesse perfeita, não estava; acho apenas que encontrei outros caminhos de escape. Ou vivi caminhos inefáveis - inexpressáveis apesar de toda sua expressão.
Isso é bonito de ver.
Trecho do meu ano, em imagens, já que estou dando folga às palavras.

 


16.6.13

cuidado com o que sonha

Acordou e ali permaneceu, por alguns minutos, as mãos cobrindo a boca entreaberta. Sorrateira, arriscou-se a sair, como uma gata, deslizando pelo canto da cama. Ele estava profundamente adormecido, esparramado, suas pernas e lençóis em nó. Frente ao espelho, ela viu cabelos curtos. Unhas roídas - hábito antigo. Mudara e muito nos últimos cinco anos. Devia estar sonhando. Pesadelo. Voltou ao quarto e cutucou o celular: 2008. "Se me lembro bem, esse ano foi muito sem graça."

Ela se deitou e tentou despertar. Mas ele acordou antes. Deu um sorriso com os olhos pequenos, esmagados, como sempre fazia  - lembrava ela agora. Estava hoje casada com um cara que sempre se levanta antes, insone, inquieto; não sabia mais como era olhar para alguém dormindo. Ele a abraçou, como um urso, e perguntou, em murmúrios, que hora precisaria levantar para o aniversário de seu pai. Ela sentiu o pesar. O pai já havia falecido. Nesse mesmo ano, ou no ano seguinte, talvez. Mas é claro que ele ainda não sabia. Incapaz de perturbar aquele roteiro, respondeu, fantasiosa:  

- Às três.

Virou para o lado e apertou as pálpebras o mais forte que pôde. Contraiu o corpo todo. Já era hora de despertar. Mas não conseguia. E pensou no relatório que precisava terminar, e que há domingos não levava a Carol à praia, e que sonhar com um caso tão antigo é mesmo algo a se levar à terapia, e na custosa nostalgia de se ver como há cinco anos - sentimento de algo interno que se perde ao tempo, às errâncias da vida. 

Mas acontece que o dia se passou. E, ainda, dias se passaram. Ela estava certa de que havia enlouquecido. No início tentara seguir aquele jogo, testar a irrealidade de seu sonho, mas não conseguia voar, nem teletransportar, nem enriquecer. O namorado começou a ficar preocupado. Ela destratava a todos, irritadiça, e chegou a ficar por um fio no trabalho, depois de sucessivos desentendimentos e ausências. Checava os noticiários, procurava por evidências, tentava acertar casos e datas, parecia ter desenvolvido superstições sobre tudo o que fazia e como. Procurou por pegadas na existência de seu emprego verdadeiro, relacionamento verdadeiro, vida verdadeira. Estaria alguém vivendo em seu lugar? Estudou o que pôde a respeito de realidades oníricas, paralelas, transtornos mentais. Não sossegou.

Foi uma vez, voltando pra casa, que percebeu ter se confundido. Aquela vida não tinha sido sua. Tinha sido sonho. Um sonho pro qual - que catástrofe - não se pode retornar.

Quis tanto que enfeiou a vida.



10.6.13

psicanálise (em gotas)


'Há certa graça na repetitividade, nos clichês incansáveis que temos em nossos bolsos e que a todos podem servir -  o que nos move não é a cenoura, frente ao focinho do burro, o que nos move está atrás, a busca é pelo desejo e o desejo é pela falta, essa sim nos empurra, nos move, nos objetiva, nos encrenca.'


20.5.13

amor-instante

'Foi quando percebi você comovido? Foi aí que eu, de acordo, enterneci? Foi em alguma coisa que alguém disse? Fração de quê ou de quem? Foram passos que eu dei, dentes que escovei, vogais da minha voz? Foi essa manhã? Onde? E quem presenciou – será que percebeu? Foi a bossa nova nos ouvidos, o pouso daquele avião? Foi em um esbarrão ou entre garfadas? Foi de olhos fechados?

Qual meu álibi? Onde eu estava, que deixei isso acontecer? Onde, se não em mim mesma? Amores-instante são um clichê na minha trama - o segundo inaugural em que passo a me sentir dois.'



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Nota: Perceber-se apaixonado é bom, né? Todo dia é melhor ainda.
(Dia nenhum é um desacato)

18.2.13

#3


“Do meu riso, seu remorso. Você se desculpou por ter tolido meu humor tantas outras vezes, apático, intransigente; redimiu-se por demorar a perceber esse humor tal como o que era - alicerce do que você sentia. Talvez houvesse mesmo muita vida naqueles olhos que me acompanhavam onda à frente, onda atrás; vida que eu não paguei pra ver, meus trocados já haviam se esgotado de outrora, quando eu apostava em você e na gente quase que todo o instante, aposta manca, duvidosa, azarada. Foi de aposta irracional que vivemos por tempos e tempos, a gente teve apego, tolerância, cisma, quem é que diz que a gente não teve? Pra vestir das fantasias um do outro a gente se diminuía e se esticava. Rasgava e recompunha. Não deu; a gente morreu na praia. E saiu vivo – o que é ainda pior.”



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Nota: difícil manejar essa época bonita da minha vida com as desgraças que eu curto escrever. Sai quase na-da!
Achei o brilho e perdi a graça.

3.1.13

lar

Pessoas de amores unilaterais. Pessoas que esperam, passivas, para que seus destinos se refaçam sozinhos. Pessoas que acham que amor vem de fora. Pessoas que acham amor e jogam fora. Pessoas que traem seus parceiros – bonitos, amáveis, parceiros. Pessoas que traem a si mesmas. Pessoas rasas, geladas, mal passadas. Pessoas cruas. Pessoas que paralisam, doem. Pessoas que reclamam. Gente feia, fosca, estreita – não me serve dos joelhos para cima. Não recuo; certo esforço, até as entendo. É só que o feio não me agrada os olhos.

Gosto quando a gente entra na alma de alguém pelas pupilas. Quando aquele abraço sem sentido dá vontade de chorar. Quando palavras sem muita precisão dão força e lucidez. Prefiro pessoas que não são quem, são onde - lugar bonito de se estar.

A todas essas pessoas-lugares, por me deixarem morar arredia, espaçosa e sem pagar aluguel algum.

 Oi, 2013! :)

18.12.12

#2

'Doem fibras, core, lacunas de sua alma que ele mesmo desconhecia; saudade é um conceito pouco. Sentiu falta até mesmo dos momentos em que ela se punha à sua frente, reclamando no seu rosto, estridente aos ouvidos, injusta, incoerente. Ele passou dias trancafiado em seu apartamento, pedindo comida cara, insossa, se houvesse fome, e assistindo às porcarias da televisão. Ouviu aquele recado repetidas vezes. Pranteou, enlouquecido. Percebeu que ela estava, mesmo, conformada com a situação. Estava bem, e estar bem se sobrepõe a todo o resto.'

17.12.12

"o momento presente é inevitável"

Tem algo meu, área das sobrancelhas, que me entrega pesado, principalmente nos bons humores. Perguntam se estou bêbada - o copo de coca-cola entre as mãos. Perguntam se aconteceu algo, se estou ganhando bem. Se tem alguém novo na minha vida, pelos risinhos muitos, pela leveza com que tenho pisado no mundo. Mas nunca me perguntaram o que eu descobri. Não seria essa a pergunta mais cabível? Que sabedoria é essa, quem me deu? De onde vem isso que algumas pessoas parecem simplesmente saber no sorriso?

Aconteceu. Os o quês e os comos não tem porquê nessas linhas. Eu percebi o propósito único da minha vida. Os sentidos são muitos e transitórios - ainda sei dos meus planos, dos meus desejos, ainda sei o que não quero e também o que mais preciso, e sei também que tudo isso ainda há de dar inúmeras reviravoltas e me deixar tonta, pra então não saber mais coisa alguma. Mas o propósito, diferente do sentido, é um só, é algo para todo segundo, uma regra única de vida, e o meu é apenas o de estar confortável no agora, pousada no presente, sem impaciências - um instante de cada vez.

"O momento presente é inevitável". Inevitável. Pensa-se o amanhã, pensa-se o ontem, estando no hoje. Estou acontecendo no hoje. Então pra quê? Engraçado: escolhi uma profissão que me obriga a pendular entre passado e futuro todo o tempo, mas agora vejo que, em minha essência, eu sempre fui alguém do presente. Eu tenho um prazer inenarrável em estar presente no presente. Estarei apenas aqui, com estes segundos, este, em que esse ou este verbete é lido - aqui, no agora. Esse lugar me pertence.

 

27.11.12

apenas mais uma sobre aquele fenômeno

'Ela largou as botas sujas sobre a mesa da cozinha. Fumou-lhe o último cigarro do maço, quase que de sacanagem. Sentada na sua varanda, confidenciou. Algo precioso. Pediu desculpas pela bebedeira e se acabou de rir, em soluços. Você estava meio elétrico, nem reparou que passou um segundo ou dois apalpando suas próprias nádegas, tentando pôr as mãos em um bolso que não existia. Você gostava dela, talvez não houvesse amor algum, mas você gostava da maneira como ela o desafiava, era como se você tivesse que conquistar cada unidade de sentimento dentro dela, como se existissem unidades numéricas para medir o desvelo, a libido, os afetos em geral. Desconversou um pouco, pediu a ela que ficasse. Segurou-a pelos braços e beijou-lhe o canto do sorriso. Antes de se deitar em sua cama, ela tomou um banho demorado. Você a achou mais bonita de rosto lavado, sem todos aquelas cores indevidas, desordenadas. Cansado, você cochilou no sofá-cama da sala. Deviam ser quase cinco quando despertou e percebeu que ela dormia ao seu lado. Você tentou não se mexer, mas ela murmurou algo que você daria a própria carcaça para ter entendido. Comoveu-se. Pensou, por ora, que ela poderia ser tão sozinha no mundo quanto você.

Virou para o lado e dormiu, dormiu até tarde, faltou o trabalho naquele dia. Era uma segunda-feira. Famintos, passaram a tarde combinando restos da sua despensa. Vocês conversaram, compraram cigarros na padaria de baixo, debateram, reclamaram, partilharam de um mesmo humor. Parecia verão, e ela própria possuía dois sóis, um em cada olho, que pareciam acendê-la de dentro pra fora, alimentá-la. Você não havia percebido isso nos últimos anos. Quando ela ainda lhe era rude, inexpressiva, intangente, uma estranha, você olhava para o seu rosto quase se esquivando, pois parecia que era o mau humor dela que fazia chover e cair o mundo. Naquela época, vocês conversavam em desníveis, em frequências diferentes, impacientes, monólogas. Você nunca achou que iria um dia se pôr mendigando seu afeto, suas vontades, suas migalhas e possibilidades - os dedos dela em seu pescoço, decisivos, sufocando-o a outra direção.'
 


12.11.12

ao extraordinário

Bom moço, bom papo. Dessas esquinas da intimidade em que nascem as amizades, ele tirou um desabafo. Eu vasculhei, catei e tirei uma resposta. Quase que um sopro terapêutico em um sábado à noite - não resisto. Ele quis um beijo, beijei-lhe a testa. Já havíamos perdido as estribeiras e recuperado. Às vésperas dos meus 23 anos, talvez tenha eu aprendido a reconhecer o sentido real das experiências. Ele apareceu para que tivéssemos um momento de cumplicidade. Foi nada, mas foi algo. E assim, às avessas, servimos um ao outro como excelentes amigos.

Conversamos sobre ela. Emprestei-me por inteiro. Foram horas dos meus melhores conselhos. Ouvidos, colo, tudo aquilo. Tornou-se íntimo das minhas desgraças e dos meus afetos - desnudos, manifestos. Arrisco dizer que esse lampejo de amizade entre desconhecidos foi dos mais especiais que já presenciei. Veio por esses dias me contar que reatara seu namoro, comemoramos; ele sentiu meu contentamento sincero do outro lado do telefone. Agradeceu por ter me conhecido e, mais ainda, pelo desenrolar que dei às coisas: Ainda bem que você é jogo duro. Vez ou outra, mantemos contato. Trocamos alguns cuidados. Eu havia concedido, em fragmentos, o que há de mais precioso em mim: meu otimismo. Percebi que lhe serviria naquele momento. E foi, essencialmente, um acerto. Tenho verdadeira paixão por esses encontros que o acaso proporciona para além de verbo e saliva.

O sentimento não me é estranho - esse, da troca sentimental entre estranhos. Gosto muito. Fica aqui minha homenagem às sutilezas em que às vezes esbarramos, para pôr extra no ordinário da vida.



9.11.12

maríntima

Garrafa e meia. Vinho tinto, demi-sec, como se eu soubesse. Meu barco desancorado. Céu de um laranja áspero, cítrico, caprichoso. Brisa de outono, de ter escolhido o casaco errado. Os olhos ao mar, marejados. As pontas dos dedos, distantes, não chegam à água. Garganta de nó, enjoo de boca, parece que passa. O telefonema nem recebido já foi silenciado. Esfinges e dores que não se explicam e as ondas já levaram. Indo assim, à deriva, é só em mim que eu deságuo. Capitã tem um problema: está de barco no asfalto.

É muito mar pra pouca vida; quem sossega?


3.11.12

folie à deux

'Eu havia reclamado, insensata, do vácuo que se vive entre amores. Ousei dizer que esses espaços de tempo entre desencanto e reencanto eram lacunas de morte dentro de uma vida. Tropecei feio no comentário. Vejo agora: estava acomodada naquela trincheira. Escondida e adorando. Água, sombra e uma paz paradisíaca. O reamor veio em minha vida nas horas mais oportunas, mas dessa vez, sinto, veio pra me apavorar. Puxou pelos braços, pelos cabelos, pelas vísceras. Eu não quis. Não agora. O desejo era livre, errante, como a dona; não tinha direcionamento, e, por isso, não tinha limites, o que me fazia sentir imensa e invencível. Eu sabia, em alguma esquina de mim mesma, que era uma questão de tempo até aquele desejo encontrar um novo objeto para se fixar. O perigo dessa iminência, dessa vulnerabilidade nos meus afetos me excitava e me fazia sorrir com cada encontro, desencontro, despedida. Deixei vagar. Perdeu-se de mim. Voltou antes que eu chamasse. Teimoso.'



8.10.12

tesoura

- Corto ou deixo crescer?
- Qualquer, você fica bem dos dois jeitos. Corto ou deixo crescer?
- Corte, enquanto está no início. Enquanto pode. Enquanto é pouco. Deixe crescer não, que eu não dou pra tanto, o desapego é inerente, já o coloco aos pés da cama, do avesso, transtornado, minha vontade se esvai gota em gota, meu desejo é falho e muito, você vai me ouvir falando de outros caras, vai me ver desentendida, desinteressada, desaparecendo, até que simplesmente não vai me ver mais, e vai gastar um tempo procurando meu perfume nos pescoços, revirando memórias atrás de vestígios de um início do fim, mastigando, relutante, que sou daquelas de se deixar no pedestal pegando a poeira da vida.
- E o cabelo?
- Deixe crescer. Gosto como está.

24.9.12

eu vou

Uma confissão: não me lembro mais. Do seu rosto, da sua risada, dos momentos. Nada. A única memória é uma hipótese que tenho, plausível e certeira, de como foram aqueles dias pra você. A lembrança é construída e é a única que me resta. Você chegando em casa, desmoralizado, meu sorriso pelas paredes, o desenho na tela de seu computador, a 3x4 na carteira, os presentes, o cheiro no travesseiro, tudo que já foi escrito, tudo que já foi dito - minha voz, espaçosa, martelando seus ouvidos assim, de dentro pra fora. A solidão pela manhã, que não passa, que persiste, que partilha do teu almoço, do teu jantar, que piora no banho, que escapa pelos olhos. Vira rotina lamentar, antes de dormir e depois de acordar, as possibilidades, os erros e a culpa, tem culpa?, a culpa é de quem?. Vira rotina comer menos, falar menos, romper com o mundo. Aí vêm outras mulheres, mas falta. Vêm novos caminhos, e falta. Vem a vida te arrastar ao sossego, e você nega. E depois de tanta falta e negação, vem a sorte te trazer outro sorriso pra ocupar suas paredes. Isso não está na minha lembrança construída, mas provavelmente está nos seus planos. E, veja bem, eu quero que esteja. 

Minha importância foi a de partir. Sem o partir, você seria só erro sem culpa. Penso que posso ter feito grande papel no teu crescimento, no teu aprendizado, ao dar o soco que ninguém nunca te deu. Essa culpa vai te mobilizar, como o meu sofrimento me empurrou para algo maior e melhor. Eu espero que você tenha se utilizado bem da nossa história, como eu me utilizei. Aprendi, aprendi, aprendi. Acertei de namoro, errei de namorado. Para mim, foi uma página; pra você, um livro inteiro. Leia-o. Sangre os olhos nessas páginas. O meu olhar é para frente, coração aberto, tranquilidade no rosto que não se vê desde o nosso antes. Eu já estou no caminho certo. Eu sempre estive.

Que você encontre o seu.

25.7.12

epifania

"Foi nessa cozinha que eu tive o primeiro baque: ver você comendo com as mãos. Talvez esse tenha sido o momento em que eu me desapaixonei de primeira viagem, primeira porque depois dessa houve muitas outras viagens; a gente se apaixonava e desapaixonava semanalmente em epifanias próprias e muito complexas. Eu tinha essa questão com a comida: o barulho que a sua boca fazia quando você mastigava, o molho já seco no canto do sorriso, os dedos sujos de massa – o que foi que houve em sua criação para continuar comendo assim? Pelo amor de Deus.

O corredor, esse corredor, essas paredes. Quando se atrasava, saía como um touro, corredor adentro, corredor afora, voltando para buscar isso ou aquilo, em resmungos. Vez ou outra a gente acabava se encontrando, os corpos se encontravam sem jeito e às vezes até doía; já sem pressa, você ficava, e a gente bolava então uma desculpa qualquer pra você faltar aquele trabalho que você odiava, mais um dia, só mais um dia, eu juro, só mais uma semana. Claro que você permaneceu no emprego pra mais de ano. Você era assim, teimoso, e eu odiava quando você se descrevia como persistente. Sem eufemismos pra alguém que te conhece gripado, broxa, sem dinheiro e sem banho, por favor. A gente teve só o cru  um do outro e essa intimidade foi o que tanto nos afastou - ironia violenta.

Nas chaves da nossa porta, uma última epifania: a vontade que me dá de já deixar a porta aberta, cada vez que você sai, contando quantos minutos leva dessa vez pra você voltar. A gente não sabe nem brigar, a gente não dá pra casal, que piada; você sobe o lance de degraus com pés pesados, xinga, esquece que estou ali, e no dia seguinte somos só constrangimento, favores que nem foram pedidos, somos gentileza.

Acho que a maior epifania que se pode vivenciar é perceber que se está verdadeiramente ligado a alguém, invariável e inevitavelmente, até que a vida os separe."